segunda-feira, 20 de novembro de 2006

UM CONCERTO NO CÉU

Quando em cada dia há um céu "claro", é que me dou conta de quanto o meu entardecer se assemelha muito mais a uma profunda noite-de-breu do que a um ténue crepúsculo do conhecimento; Quanto mais em matéria de existência... "Cosas del yo cuántico"!

Certo dia escutava, com a pachorra que Deus me deu, um sujeito com ar de figura pública (que, valha a verdade, é ainda mais desonesto intelectual do que parece) arremessando-me com um punhado de pensadores físicos (e metafísicos, digo eu) - restrito - dizia ele, à guisa de quem sublinha, que ele há estopa onde jamais o comum dos mortais deve meter prego.

Este meu familiar político de outrora, pareceu-me mais a cavalgar um Rocinante escanzelado, do que um Pégaso bem aplumado e nutrido, como, presumo, ele teria querido montar (qual Belerofonte) quando me quis vender pelo preço de um neutrino a esclarecedora chorrica-celestial que esse grupo de sábios havia debitado e se inclinava para um dado surpreendente naquilo a que ao Céu diz respeito; E até já teria sido vertida numa revista da especialidade a Douta conclusão:

---O ESPAÇO, NÃO SÓ TEM LIMITES COMO TEM A FORMA DA ESCALA DE UMA GUITARRA---

Oba oba!... Até parece que esses cientistas se inspiraram naquela faducha coimbrã, em cuja letra a determinado passo se lê:

EU QUERO QUE O MEU CAIXÃO
TENHA UMA FORMA BIZARRA
A FORMA DE UM CORAÇÃO
AI A FORMA DE UMA GUITARRA

Pelo exposto, num caixão já tinha admitido fados e guitarradas; aliás, em dois: No caixão-esquife do cantor de capa-e-batina e noutro, de primeiríssima tábua, que haveria de pertencer àquele transmontano extravagante, de seu nome António Cebolo (figura incontornável de Coleja de Ansiães) que em vida, já se vê, teria manifestado o melómano desejo de levar a sua guitarra, afinadinha e tudo, para a tumba. Agora, nos domínios do Criador uma guitarra?! É demais!...

O meu mensageiro enfatizava, ainda que com trejeitos subtis (numa tentativa frustrada de retocar petulâncias) que ele mesmo entendia muito bem essa forma ([fórmula]) cósmica. -- E quem não entende... -- dizia ele entre uma interjeição indecorosa e um sinuoso insulto de aviltar silêncios. "tá-se" mesmo a ver -- pensei: É limitado...

Após uns bocejos de VAZIO teve lugar outro; este mensurável, mas suficientemente prolongado para, quiçá, surtir uma boa interiorização na nossa pequenez. Devo confessar, que se porventura é essa a aleivosa intenção dos arautos da ciência, nem sequer têm de fazer grande esforço para me remeterem à minha condição de "gusano" já que, de modo próprio e com alguma frequência, me deixo resvalar para esse estado, pensando nos versos do príncipe dos poetas: «QUE NÃO SE ARME NEM SE INDIGNE O CÉU SERENO CONTRA UM BICHO DA TERRA TÃO PEQUENO». Todavia, por esta vez, saí desta tão depressa quanto possível, para me deter naquele filósofo que fala do que não sabe e trata de nos fazer pensar que a culpa é nossa.
Cá por mim, na minha condição de ilimitado na ignorância, pelo menos na matéria versada, não ri nem sorri; Limitei-me a dar um tom musical à coisa: Inventei um instrumentista de serviço, já que me apeteceu ouvir de Juaquin Rodrigo CONCERTO DE ARANJUEZ PARA GUITARRA. E zás!... Eis que irrompeu sob «AS LUZES DA RIBALTA» Deus Nosso Senhor a fazer uns botões, perdão uns acordes divinais, entoando nos ouvidos espavoridos duma plateia à'barrotar de anjinhos. E se a guitarra fosse Portuguesa?... Imagine-se quão gigantescas teriam de ser as mãos de Carlos Paredes, de Marcelino Carriço ou de Vasco do Espírito Santo!... Dando por certo que, não sendo Deus português, não saberá tocar a guitarra lusa; E não consta que tenha unhas postiças nem palheta.

Olha!... não acharam interessante? Ah, já sei: Esqueci-me de lhes apresentar o sujeito com ar de figura pública. Lapsos...

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